CARACTERIZAÇÃO CLÍNICO-FUNCIONAL DE PACIENTES COM DIFERENTES TIPOS DE DOR CRÔNICA
INTRODUÇÃO: A prevalência de dor crônica no Brasil é de cerca de 45% e representa uma importante causa de incapacidade, sofrimento físico e psíquico, isolamento social, afastamento do trabalho e sobrecarga do sistema de saúde. A dor crônica é uma condição heterogênea, com diferentes mecanismos fisiopatológicos que podem exigir estratégias terapêuticas distintas. A caracterização integrada da dor e da carga farmacoterapêutica pode contribuir para identificar grupos mais vulneráveis e subsidiar a investigação de possíveis repercussões neurofisiológicas. OBJETIVOS: Comparar características sociodemográficas, clínicas, da dor e farmacoterapêuticas entre indivíduos sem dor crônica e pacientes com dor somática ou neuropática, bem como investigar a relação entre a intensidade da dor e a complexidade farmacoterapêutica. MATERIAIS E MÉTODO: Estudo transversal, descritivo e observacional com 209 participantes, distribuídos em grupos controle (n=70), dor somática (n=83) e dor neuropática (n=56). Foram avaliados aspectos sociodemográficos e clínicos, a intensidade e as características da dor pela Escala Visual Analógica (EVA) e pelo Questionário de McGill, o número de medicamentos, a polifarmácia e a carga anticolinérgica e sedativa pelo Índice de Carga Medicamentosa (DBI). Como etapa complementar, foi desenvolvido um pipeline exploratório para padronizar o processamento de registros eletroencefalográficos e extrair parâmetros de interesse. RESULTADOS: Os grupos diferiram quanto a gênero, índice de massa corporal, escolaridade, número de comorbidades e multimorbidade (p<0,05). A intensidade da dor pela EVA não diferiu entre os grupos somático e neuropático (p=0,361), enquanto o escore total e os descritores do questionário de McGill apresentaram diferenças significativas. Observaram-se diferentes gradientes de complexidade farmacoterapêutica entre os grupos controle, dor somática e dor neuropática, destacando-se o número médio de medicamentos de 1,90±1,90, 2,41±2,41 e 4,91±4,46 (p=0,019); a polifarmácia de 8,6%, 14,3% e 36,4% (p=0,039); e o DBI médio de 0,02±0,10, 0,20±0,38 e 1,10±0,64 (p<0,001), respectivamente. A exposição ao DBI aumentou progressivamente entre os grupos (4,3%, 33,3% e 76,0%; p<0,001). Entre os participantes com dor, a maior intensidade da EVA correlacionou-se com maior número de medicamentos (ρ=0,408; p=0,008), DBI (ρ=0,521; p<0,001) e número de classes de medicamentos utilizadas para a dor (ρ=0,455; p=0,003). CONSIDERAÇÕES FINAIS: Diferentes tipos de dor apresentaram perfis distintos de complexidade farmacoterapêutica, com maior carga medicamentosa, anticolinérgica e sedativa no grupo neuropático. A associação entre maior intensidade da dor e maior complexidade farmacoterapêutica reforça a importância de considerar o mecanismo da dor e exposição farmacológica, além de fundamentar futuras investigações integrando farmacoterapia, cognição e parâmetros neurofisiológicos.
PALAVRAS-CHAVE: Dor crônica; polifarmácia; dor somática; dor neuropática.
Votação encerrada.